Alberto Caeiro
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Alberto Caeiro,
Poesia (Poemas Inconjuntos), edição (2.ª) Fernando Cabral Martins, Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 174
1ª publicação in Athena, nº 5. Lisboa: fevereiro de 1925.